Eduardo Miranda | O responsável pela ‘Era de Ouro dos Animes’ no Brasil Considerado o pai dos animes no Brasil, Eduardo Miranda foi Chefe de Divisão de Cinema da extinta TV Manchete e sem ele não teríamos vivido a experiência de ter assistido na TV, obras como os Cavaleiros do Zodíaco, Yu Yu Hakusho, Sailor Moon, Shurato, Super Campeões e muitos outros.

 

É impossível falar da história dos animes na televisão Brasileira sem mencionar o nome de Eduardo Miranda e da importância de sua carreira nesse período. A era de ouro dos animes no Brasil só aconteceu por causa dele e de sua equipe. Isso mesmo! Considerado O PAI DOS ANIMES NO BRASIL, sem ele não teríamos vivido a experiência de ter assistido na TV, obras como os Cavaleiros do ZodíacoYu Yu HakushoSailor Moon, Shurato, Super Campeões e muitos outros.

Consultor de aquisição internacional, formado em Psicologia, além de radialista e crítico de cinema, Eduardo Miranda foi nos anos 90 o Chefe de Divisão de Cinema da extinta TV Manchete, sendo o responsável por selecionar e inserir os desenhos animados na programação da TV e pela manutenção de séries no ar como Jaspion, Jiraya, Changeman, Black Kamen Rider, Jiban, Winpector entre outros.

Crianças deixavam de brincar na rua e corriam para as suas casas para assistir os sucessos dos desenhos em que a TV Manchete dedicava os surpreendentes 40 minutos de sua programação aos animes japoneses. Isso marcou uma geração e proporcionou a crianças sonharem em ser aqueles personagens, conferindo a Eduardo o mérito pela nossa nostalgia, saudosismo, e nossa gratidão. Atualmente ele possui um canal no Youtube, onde faz excelentes críticas sobre produções cinematográficas além de falar um pouco sobre a história do anime na TV.

Por tudo isso, nada mais justo do que uma entrevista especial para detalhar um pouco da história desse mestre a que devemos momentos felizes da nossa infância. Confira agora a nossa entrevista exclusiva.

 

  1. Conta um pouco para a gente como era o seu dia a dia de trabalho na antiga TV Manchete. Você assistia em casa os animes que você ajudava a editar?

R: Bem… Na verdade, a rotina em uma emissora de televisão não é diferente de qualquer empresa. São contratos, relatórios, reuniões, decisões a serem tomadas, administração e otimização das tarefas e gestão de pessoal… Porém, existe sim esta parte “gostosa” de ter que avaliar diversos filmes, séries, minisséries e desenhos animados, que são oferecidos. Como o tempo para avaliação era, geralmente, curto, no horário de trabalho, grande parte do material para avaliação eu tinha que levar para casa. Mas entendam… Nem sempre isso é um prazer, pois cada produto (mesmo que horrível) tem que ser visto analisado e feito relatório, onde a responsabilidade é toda sua (ou melhor, minha) na hora de descartar ou aprovar determinado produto. Qualquer erro nesse sentido, poderia representar “munição” para concorrência ou você ter que gastar dinheiro da empresa em algo fraco e que não gera audiência… É como eu sempre digo… Trabalho é trabalho, seja com o que for, sempre será uma grande responsabilidade e deverá ser exercido com o máximo de ética e profissionalismo! Sempre deixando o gosto pessoal de fora.

 

  1. Na emissora, você já colocava desenhos no ar como os da empresa Norte-Americana Hanna-Barbera. Como foi o processo de escolha pelas obras japonesas? E como foi a sua reação ao perceber a resposta positiva do público aos animes na TV?

R: Sim, assim que assumi a divisão de cinema da Rede Manchete, em 1993, minha primeira opção foram os clássicos desenhos da Hanna-Barbera, porém, já trabalhávamos com produtos de origem nipônica, como no caso dos Tokusatsus que herdei da gestão anterior. Então, além de programar os desenhos americanos, tratei de renovar os contratos dos Tokusatsus que faziam mais sucesso e, ainda, adquiri outros que, também fizeram muito sucesso, como Kamen Rider RX, Winspector, Solbrain, Patrine e alguns outros. Acho que isso fez com que minha surpresa quanto aos bons índices com os animes não tenha sido tão grande, pois já tínhamos este público na emissora, de certa forma. Mas, devo dizer que minha reação ao ver o sucesso absoluto de Cavaleiros do Zodíaco foi de pura euforia e entusiasmo para continuar o trabalho que estava sendo desenvolvido. Uma sensação de vitória!

 

  1. Pra você, qual é a diferença entre os desenhos americanos e os japoneses? Você acha que os desenhos americanos estão mais voltados para o público infantil, enquanto o japonês abrange um público maior?

R: No meu entender, a maior diferença entre estes dois mercados está na diferença cultural entre ocidente e oriente. O “pudor” norte-americano é bem mais aceito do que a visão ampla e diferenciada dos orientais quanto a violência, religião, sexo, conceitos morais, educação e inúmeros outros elementos que, muitas vezes, impossibilitam que certos animes de sucesso para faixas etárias semelhantes, sejam negociados no ocidente sem as terríveis adequações que deformam o produto final.

 

  1. Você foi o responsável por fazer com que a emissora entendesse que vários produtos audiovisuais (que marcaram uma geração) seriam rentáveis para a televisão brasileira. Explica para a gente o que foi o sucesso dos Cavaleiros do Zodíaco para a TV nos anos 90?

R: O sucesso de Cavaleiros representou uma revolução no que tange licenciamento de produtos, o surgimento de novas séries nipônicas na Manchete e em outras emissoras, que passaram a apostar nesse filão, no crescimento do mercado para a aceitação da cultura japonesa, a criação de diversas revistas e publicações sobre o tema, na criação de eventos por todo o Brasil e até em tornar muitos dubladores em celebridades… Hoje em dia eu olho tudo isso e ainda não acredito… Fico perplexo como uma decisão bem feita e profissional, em televisão, pode mudar culturalmente um país e seus hábitos… E mais ainda… Ser honrado com o título de “pai dos animes no Brasil”… Que eu muito agradeço a todos os fãs que confiaram e tiveram tanto carinho e atenção com o meu trabalho. Muito obrigado! 

 

  1. Como você descobriu os Cavaleiros do Zodíaco? Foi difícil fazer com que a Manchete exibisse? Conta também quanto tempo levou para que esse anime desse resultado na TV, desde a sua aquisição até gerar uma boa audiência e após isso, por quanto tempo no ar o anime rendeu uma boa audiência?

R: Conheci “Os Cavaleiros do Zodíaco” em uma tarde, como outra qualquer, no início de 1994. Fui chamado para uma reunião na sala da direção de programação. Nela, estavam, apenas, o diretor de programação, o diretor do comercial e o licenciador da marca. Logo me colocaram na frente de um pequeno monitor e me pediram para dizer o que eu achava da série. Assisti, por 15 (torturantes) minutos, um clipe sem diálogos que apresentava, apenas, uma música horrível e cenas de diversos cavaleiros batalhando, sangrando, matando, mutilando, pessoas furando os olhos, cortando os pulsos, metendo a mão dentro do peito do outro! Um horror regado a muito sangue. Assim que acabei de ver, eles logo perguntaram o que eu havia achado e dizendo que era o sucesso do momento na Europa. Calmamente eu disse “não” e expliquei que a nossa programação infantil não iria comportar ou se adequar à toda aquela violência que eu acabara de presenciar. Senti que o clima pesou na sala e que todos ficaram bem nervosos… Porém, meu parecer era aquele, o mesmo que outras emissoras já haviam dado e rejeitado o produto. Nervosos, eles perguntaram o que era necessário para que eu revisse o meu parecer… E eu disse que teria que ver episódios completos, para poder entender a dinâmica de tudo aquilo que vi. A princípio, o licenciador disse que não era possível! Que seria caro! Que estava em espanhol! E eu disse que não teria problema algum, mas que sem os episódios eu insistiria no parecer negativo. Os diretores de programação e comercial corroboraram a minha decisão, dizendo que o parecer artístico final era o meu. Assim, o licenciador, rendido, uma semana depois me enviou 5 episódios… E eu pude entender o que era Cavaleiros. Lembrem-se que estamos nos anos 90… A internet não existia como hoje em dia… E a informação para certas coisas era muito difícil de se ter. E assim, os Cavaleiros chegaram na Manchete, para alegria de todos, pois este simples desenho salvou a emissora de índices muito baixos e reverteu um quadro caótico de audiência, fazendo tudo ao seu redor crescer, também. A audiência inicial de Cavaleiros não foi grande coisa… Mas com o tempo, conseguimos dar trabalho até para a Rede Globo (soube disso quando trabalhei lá… Foi sensacional!).  Cavaleiros foi reprisado até a exaustão. E em 1997/98 teve que sair do ar, para minha tristeza e a de muitos. Mas logo a emissora, também acabaria. 

 

  1. Você estava preparado e queria muito colocar Pokemón no ar em 1998 na Manchete, mas a emissora não quis. Nos conta um pouco sobre essa história. 

R: Estava tudo pronto: contrato, dublagem, fitas chegando… Até que no “Jornal Nacional” aparece a notícia de que 729 crianças japonesas haviam tido ataque epilético ao assistir um determinado episódio que apresentava uma sequência onde o efeito estroboscópico do ataque de uma das criaturas afetava as ondas cerebrais das crianças… Foi um balde de água fria… Logo a direção geral da TV Manchete me ligou solicitando que eu desse uma entrevista aos jornais, garantindo que está série não seria exibida na emissora… E foi o que fiz… Mesmo com o produtor da mesma, aos berros no telefone, me garantindo que o tal episódio já havia sido consertado e que eles estavam revisando a série toda para evitar este problema… Sabe… Penso que não era para ser… Pois teria sido épico… Não acham? 

 

  1. Sailor Moon surgiu para atender ao público feminino? Como foi o processo de escolha desse anime que graças a você, ganhou milhões de novos fãs brasileiros?

R: Bem… A oportunidade de exibir “Sailor Moon” veio com o sucesso de “Cavaleiros do Zodíaco”, pois havia conquistado o direito de escolha. Decidi então experimentar algo com uma pegada feminina maior! E nada melhor que Serena e suas amigas para tal. Porém, a série aguentou apenas uma reprise e logo começou a apresentar péssimos índices de audiência… Fiquei bem triste de ter que tirar ela do ar, mas era o certo a ser feito, pois logo depois, coloquei “Super-Campeões” e foi mais um sucesso! Fico feliz que este curto espaço de tempo em que “Sailor Moon” ficou no ar, tenha marcado tantas pessoas que acabaram virando fãs.. Muito obrigado a todos!

 

  1. O que você acha da evolução dos animes atuais? Qual ou quais você mais gosta?

R: Engraçado… Vejo o mercado de novos animes mais voltados para a cultura deles. Não consigo ver nenhum que eu programaria com confiança de boa audiência e/ou que fosse liberado pela nossa classificação indicativa como próprio para um horário infantil. Outra coisa que noto, é o resgate de séries já consagradas que estão voltando com novo visual, mais tecnologia e roteiro nada brilhante… Acho que muita coisa mudou dos anos 90 até os dias de hoje. Quanto ao que gosto na atualidade, lembro que meu gosto não casa com a adequação para tv aberta. Assiti “Kill la Kill” e fiquei impressionado com a animação. Outro foi o “Sword Art Online”… E ainda um muito novo chamado “Re:Creators”. Muito bom!

 

  1. A excelência e o sucesso do seu trabalho te credenciaram para novos projetos: você também chegou a trabalhar na Rede Globo. Como foi o seu trabalho na emissora?

A TV Globo é uma empresa completamente diferente do que foi a Rede Manchete e de muitas outras. Lá vale o todo… E o talento pessoal é diluído em um monte de reuniões e opiniões de diversos profissionais… Porém, posso dizer que “ajudei” (foi meu mérito) a volta de “Dragon Ball” para a grade de programação infantil, a programação dos desenhos “Zatch Bell”, “Moster Rancher”, “Kamen Rider Dragon Knight”, “Bakugan”, “Digimon”, “Clone Wars”, “Hamtaro”, “Super Pig” e alguns outros que ficaram bem pouco tempo. Mas o trabalho lá era bem difícil… E estas “pequenas” conquistas ficaram como mais um trabalho desenvolvido única e exclusivamente pela Rede Globo, como tem que ser.

 

  1. Atualmente você possui um canal no Youtube chamado Projeto Cinevisão, lá você faz excelentes críticas sobre filmes e fala sobre a história da memória da TV. Como surgiu esse projeto e o que vem pela frente?

R: Obrigado por mencionar o canal! Sim, estou me aventurando nesse admirável mundo novo do Youtube e confesso que está sendo radical! Em um ano mais de 10.000 inscritos foi uma grande surpresa para mim, pois me acho meio acadêmico demais para esta mídia… Com o tempo, pretendo ter um conteúdo bem mais dinâmico e bem mais vídeos postados, por semana. A ideia do canal surgiu em 1998, quando a Rede Manchete mostrou interesse em fazer um programa de cinema comigo aos sábados, bem aos moldes do lendário “Cinemania”, que era apresentado pelo grande crítico de cinema Wilson Cunha. Mas, infelizmente a Rede Manchete acabou em 1999 e o projeto foi engavetado, assim como tudo que já estava acertado para ele. Recomendo a vocês leitores que entre no canal do Projeto Cinevisão para saber mais desta história e assistir o piloto perdido do “Cinevisão”, que era o nome original do programa. Bem… O tempo passou … Eu olhei para o Youtube… O Youtube “olhou para mim”… rsrs e decidi “tirar o projeto da gaveta” e fazer uma versão pocket com o sugestivo nome de Projeto Cinevisão”! Onde faço a minha crítica da semana e apresento outros comentários sobre cultura pop, memória da TV e até coisas do sobrenatural! Não deixe de passar por lá, se inscrever e conferir os vídeos! (em especial os vídeos do “US Mangá” e da “Sailor Moon”… E, em breve, especial “Yu Yu Hakusho”).

 

  1. Qual anime que você programou na Rede Manchete, você era fã? Como foi a história dele na emissora?

R: O anime que mais gosto, desta época, é o que eu chamo de “meu bebê”… “Yu Yu Hakusho”!!! Este anime é especial em vários sentidos para mim… Desde sua chegada até os cuidados que tive que ter com ele… Tudo era especial! Yu Yu chega até a mim pelas mãos de um fã, pois eu pedia ajuda a vários, que me levavam fitas VHS para assistir… Quando vi esse, logo me apaixonei! E decidi fazer o caminho inverso de todo o licenciamento que estava sendo feito pela Rede Manchete… Pedi para o comercial da casa falar com os licenciadores trazerem direto do Japão para o Brasil! E mesmo com pouca informação, pois lembro que estamos nos anos 90, tive muita ajuda de bons amigos super bem informados e de algumas publicações da época. E assim foi feito. A dublagem, eu pude coordenar e solicitar que fosse feita no Rio de Janeiro, pois a malandragem do Yusuke era típica do carioca! E assim que o diretor de dublagem me mostrou as gírias, aprovei no mesmo momento! O que se confirmou como sendo a melhor dublagem de anime feita até os dias de hoje! Mas nem tudo foram flores com Yu Yu… Pois tive que salvar a série removendo, quadro-a-quadro uma cruz hindu que foi vista como um símbolo nazista pela direção da Rede Manchete, que era gerida por judeus… Momentos tensos. Porém superados por uma equipe de editores fantástica que eu possuía! Por esta e outras que “Yu Yu Hakusho é, e sempre será, o meu favorito e o “meu bebê”!

 

  1. E para encerrar a entrevista: qual anime da Geração de Ouro você gostaria de ver como Live-Action?

R: Está é a resposta mais fácil… Claro que o meu favorito! O meu bebê: Yu Yu Hakusho!!!

 

“GOSTARIA MUITO DE AGRADECER A WOO WHO, NA PESSOA DO GUSTAVO SILVA, ESTA OPORTUNIDADE DE CONVERSAR COM A GALERA SOBRE ESTA ÉPOCA MÁGICA QUE NUNCA IRÁ SUMIR DE NOSSOS CORAÇÕES… E QUE, COM O PASSAR DO TEMPO, SÓ PARECE ESTAR MAIS FORTE A CADA DIA! DEIXO AQUI O MEU MUITO OBRIGADO A TODOS VOCÊS QUE MANTÊM VIVA A CHAMA DESSA ÉPOCA! VALEU PELO CARINHO E ATENÇÃO COM O MEU TRABALHO! E LEMBREM-SE SEMPRE!!! FIQUEM LONGE DAS DROGAS!!! UM SIMPLES “NÃO” PODE SALVAR A SUA VIDA E A DE TODOS OS SEUS FAMILIARES!!! SEJA UM HERÓI COMO TODOS ESTES QUE VOCÊS CULTUAM E ADORAM! UM FORTE ABRAÇO.”

EDUARDO MIRANDA

 

Por Gustavo Silva (@gustavo__silva__)